mar de prata

Setembro 17 2012

Amanhã, pela primeira vez na minha vida, vou a uma manifestação. Vou manifestar-me pacificamente, não vou chamar gatuno a ninguém, não vou insultar, nem sequer exigir a demissão do executivo. Quero simplesmente mostrar a minha profunda revolta com a insistência deste governo em medidas em que *ninguém* acredita. Do mais comum dos cidadãos a economistas e analistas (não falo nos políticos porque os interesses que os movem são certamente outros), a descrença é total na eficácia destas medidas para a recuperação financeira e económica do país.
Até 6ª feira da semana passada, mesmo não tendo votado neste governo, fui sempre dando o benefício da dúvida. Concordei e defendi a intervenção da troika porque acreditei que nos ia obrigar a algumas reformas profundas que nunca faríamos de outra forma. Aceitei as medidas de curto prazo de aumento na receita porque compreendi que as medidas de corte na despesa demoram a surtir efeito e as nossas necessidades eram imediatas. Em tempos de dúvida, recusei uma carreira no estrangeiro para apostar e investir neste país criando uma empresa que gerou 10 postos de trabalho, incluindo o meu, porque acreditava que ainda assim era possível pensar e trabalhar em grande a partir deste país para o mundo. Fui particularmente vocal contra as greves e sempre defendi (e continuo a defender) que o que este país precisa é de trabalhar mais e melhor e não fazer greves. Apoiei as reformas ao código do trabalho e aplaudi a concertação social que foi conseguida por todos os parceiros. Paguei sem reclamar a minha contribuição extra de 3,5% no IRS do ano passado que, no meu caso e por motivos profissionais, representou muito mais do que meramente meio subsídio de Natal. Aceitei e disse para comigo mesmo que se era isto que era preciso para sair do buraco então que fosse. Mesmo afetando diretamente a pessoa com quem partilho a minha vida, apoiei (como medida temporária!) a decisão dos cortes dos subsídios na função pública e aos pensionistas porque era uma situação de emergência e porque a alternativa de despedir logo 10 ou 20 ou 30 mil seria certamente pior para o país. Já há uns meses atrás, mesmo antes do Tribunal Constitucional se pronunciar sobre os cortes dos subsídios na função pública, defendi que o mesmo seria necessário para o privado e estava preparado para eles.
Eu e milhões de portugueses fizemos e aceitamos isto tudo acreditando que este governo saberia minimamente o que estava a fazer e que mais cedo ou mais tarde seria capaz de tomar as medidas verdadeiramente impactantes do lado da despesa. Este governo tinha a legitimidade, a autoridade, a moral e a justificação para tomar do lado da despesa todas as medidas duras que bem entendesse tal como o fez do lado da receita. E não me venham com histórias! Cortar no papel social do estado (na saúde ou na educação) ou cortar definitivamente os subsídios da função pública não são medidas corajosas de corte na despesa. São medidas cobardes!
O que é que este governo fez de verdadeiramente significativo para limpar ou corrigir todos os negócios poucos transparentes -das PPPs aos subsídios às energéticas - em que o nosso Estado se vê envolvido? Que interesses foram revistos ou reduzidos? Que reformas se fizeram ao nível da tributação do capital? Quais as contribuições significativas que foram pedidas aos que mais podem ajudar? Que responsabilidades foram pedidas aos agentes económicos que contribuíram para esta situação? Que medidas ou reformas com impactos a muito longo prazo foram tomadas para sanear a situação financeira e relançar e economia? Pouco ou nada.
Agora chega! Basta! Os anúncios de 6ª feira passada para cá do primeiro-ministro e do ministro das finanças e que culminaram com a entrevista de ontem ao primeiro-ministro mostram que, pior que não ter um plano, é ter um plano condenado ao falhanço, apoiado simplesmente e apenas em convicções pessoais, experimentalista e que se insiste em executar com um foco laser. Nada os desvia nem nada os convence. É um plano míope e miserabilista que passa o ónus da resolução do problema para o lado errado. Sinceramente, não acredito que haja qualquer malícia por detrás deste conjunto de decisões do governo. Acredito plenamente que não devemos atribuir à malícia aquilo que pode ser facilmente explicado pela incompetência. Este governo tem sido apenas isso: incompetente. E pior que ser incompetente é ser autista e alhear-se completamente da realidade e da voz daqueles que legitimam o mandato que os pôs à frente dos destinos do país.
Pessoalmente, estas medidas pouco me afetam. Tive sorte na vida. Trabalhei para isso. Vou continuar a viver a vida que tenho vivido nos últimos anos. Também tive mais juízo que os sucessivos governos e uma parte dos portugueses na gestão das minhas finanças. No entanto, não é por isso que vou ficar de braços a cruzados a ver este país e os seus cidadãos a cair na pobreza e na miséria que pensava já só existir na memória da geração dos meus pais.
Amanhã estou na rua. Vocal mas sem violência. Espero encontrar-vos a todos por lá. 

 

publicado por mardeprata às 18:27

aliança entre o mar que me viu nascer e a lua de prata que ilumina o meu caminho
mais sobre mim
Setembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13

16
19
22

24
26
29

30


pesquisar
 
site meter
blogs SAPO